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Ruy de Carvalho e um século de histórias para contar

Ruy de Carvalho e um século de histórias para contar

Em mais de oito décadas deu vida a milhares de personagens e, aos 99 anos, é ainda "muito feliz" em palco e com as palmas da plateia. "Ruy, a História Devida" é mais do que uma peça: é uma homenagem viva e uma viagem autobiográfica, protagonizada pelo próprio Ruy de Carvalho.

É um dos artistas mais acarinhados dos portugueses e o ator mais velho ainda em atividade no mundo. A caminho de um século de vida, Ruy de Carvalho entra em cena nos próximos domingos numa espécie de conversa intimista com o público, com a partilha de histórias inéditas da carreira e da própria vida. 

Antes de qualquer espetáculo, Ruy faz sempre uma refeição ligeira e prepara-se com calma no teatro. Continuar a representar é "muito agradável", admitiu numa conversa à RTP Notícias, antes da última sessão da peça. "É sinal de que, realmente, eu fiz o meu trabalho com honestidade e que cheguei às pessoas com essa mesma honestidade e esse amor com que eu pratico o trabalho".

E as salas cheias em todos os espetáculos são prova disso: "o amor e a qualidade do trabalho" que sempre investiu em cada papel que interpretou, no teatro, na rádio, na televisão e até no cinema.

"A qualidade do que fazemos para servir o público (...) tem de ser sempre igual".

São mais de duas mil as personagens que interpretou, ao longo de mais de 80 anos de carreira, mas a magia do teatro e a energia em palco perduram. "Sinto-me sempre bem no palco. Quando chego ao palco, há qualquer coisa que liga em mim, (...) há uma espécie de um interruptor que liga e eu fico bem-disposto".

E a sorrir confessou: "Às vezes até faço coisas que eu não pensava que era capaz de fazer, mesmo no palco".


Ruy de Carvalho continua a subir ao palco com a mesma paixão que o tornou uma referência do teatro português. A pouco mais de uma hora de voltar a entrar em cena, assumiu que, na maioria das vezes, nem se lembra da idade que tem.

"Eu julgo que tenho a mesma energia. Pelo menos tento aplicá-la sempre".

A diferença, acredita o ator, "está na qualidade e no amor que pomos no nosso trabalho".


Começou no teatro amador em 1942 e, cinco anos depois, estreou-se como ator profissional no Teatro Nacional D. Maria II, na peça Rapazes de Hoje. Trabalhou com várias gerações de atores e encenadores, sendo uma referência incontornável das artes de representação. Ao longo deste percurso fez muitos amigos.

"Tem de se fazer coisas com amor e com amizade. A amizade é uma coisa muito importante. É mais importante até que o amor", considerou, referindo que até para se fazer um bom trabalho é preciso muita amizade e respeito – valores que menciona também no espetáculo.

Nas últimas décadas, tornou-se uma figura muito querida dos portugueses através da televisão, com a participação em séries e telenovelas. Contudo, é no teatro que costuma ser mais identificado e onde construiu a maioria do legado artístico. Também a amizade e o carinho do público que o aplaude são importantes para Ruy de Carvalho: "Sinto-me muito feliz quando sou bem recebido".

 "Tenho muito boas provas do público. Tenho muita amizade, tenho muitos beijos", contou a rir, enquanto recorda como é abordado pelas pessoas. "São beijinhos muito bons, são beijinhos desinteressados, são beijinhos de amizade".
Eternos 18 anos
Ruy de Carvalho nasceu a 1 de março de 1927, em Lisboa. Está a meses de completar um século de vida, continua a trabalhar e a encher auditórios de aplausos. Além da peça em nome próprio, o ator integra o elenco da Ratoeira. A idade registada não corresponde à que sente que tem, nem à que mostra ter para quem ainda o vê no teatro.

"Fico contente por ter 100 anos e ainda ter uma cabeça para aí com 80 ou 70. Pensar como se tivesse essa idade. Penso como se fosse mais novo", explicou.

O segredo para manter a jovialidade é "não pensar na morte" nem em "coisas perdidas". Aliás, Ruy decidiu que ficaria permanentemente com 18 anos. 


"Toda a vida tenho 18 anos. Não abdico de ter 18 anos, (...) porque podemos entrar em toda a parte"
, disse, prestes a dar uma gargalhada.E às gerações mais novas deixa sempre um conselho: "Façam como eu: na morte não vale a pena pensar. A gente nunca sabe quando ela chega".

"A mim está a chegar muito tarde. Eu não tenho feito nada para amar a morte. Espero que ela chegue. Quando ela chegar, chegou".
"Rei" de Carvalho
Falar de Ruy de Carvalho é percorrer grande parte da história do teatro português do último século. Desde a voz inconfundível, à sua presença e longevidade, tornou-se não apenas um ator de exceção, mas uma instituição cultural.

Em Ruy, A História Devida, esse percurso transforma-se no próprio espetáculo. A contracenar com Luís Pacheco, e em vez de interpretar uma personagem, Ruy de Carvalho apresenta-se um contador da própria história, das memórias da vida e dos momentos que marcaram a carreira.

Esta produção da Yellow Star Company estreou em março de 2024 e já esgotou salas em 50 cidades de todo o país. A peça foi escrita por Paulo Coelho e encenada por Paulo Sousa Costa.

“Foi uma ideia que veio do Luís Pacheco, (...) porque quando começámos os ensaios da Ratoeira, (...) o Ruy estava sempre a contar histórias da carreira, e sempre muito engraçadas", revelou o encenador.

Das horas de viagem em digressões e ensaios nasceu esta narrativa.

Luís Pacheco, que se junta a Ruy nesta conversa intimista com o público, sugeriu que se escrevesse um texto, a partir das histórias que o ator partilhava, como forma de homenagem mas "em cima do palco".

“Falámos com o Paulo Mira Coelho - que por acaso é genro do Ruy e já escreveu biografias do Ruy - que nos apresentou um texto e depois fiz ali umas adaptações para palco, para ser assim mais dinâmico (...). E já vamos nisto há muitas, muitas sessões”, contou Paulo Sousa Costa, referindo que a "Ruy, a História devida" já percorreu “Portugal de lés-a-lés, ilhas e Moçambique”. Esta peça é, "acima de tudo, (...) uma homenagem à carreira do Ruy, à vida do Ruy". São "história de bastidores que as pessoas não conhecem".

"Veem um Ruy completamente diferente, que é o Ruy do dia-a-dia, o Ruy bem-disposto, que não está em personagem", continuou o encenador e amigo do ator. “Esta homenagem é uma homenagem viva, em vida e com o seu público”.

A experiência é muita, mas Ruy não abdica dos momentos de preparação antes de entrar em cena. Enquanto a equipa da produção finaliza os cenários, o ator fica a observar e a absorver o ambiente. Senta-se já em palco a rever o texto, ou na plateia só a ambientar-se ao espaço.

Em conversa com Paulo Sousa Costa, revelou que uma particularidade do Ruy em dias de digressão: "quando chegamos à cidade, ele não quer ir descansar”, apesar de ter tempo.

Depois de almoçar, "quer ir para o teatro”, mesmo que o espetáculo seja mais tarde.

“Ele quer lá estar. (...) E fica lá na plateia a assistir às montagens, às afinações de luz e de som. Porque ele precisa (...) de respirar aquele ambiente”.

Ruy de Carvalho tem ainda outra particularidade: mesmo quando está “fora de cena”, durante um espetáculo, como a Ratoeira, “fica sempre na sua cadeira e sempre a acompanhar o espetáculo”.

“Ele está sempre a ouvir, (...) sempre a escutar bem o que está a ser dito", disse o encenador, sem esquecer que no fim Ruy "tem sempre uma palavra para os colegas".

“Ele não se desliga” durante o espetáculo.

Paulo Sousa Costa é, além do encenador da peça, amigo próximo de "Rei" de Carvalho, como carinhosamente lhe chama. São incontáveis as horas de viagem, de conversas e de trabalho que têm juntos.

Há muita admiração por parte dos atores mais novos, principalmente pelo "carinho" e respeito com que Ruy trabalha.

“É muito difícil não gostar do Ruy”, admitiu.

Ruy de Carvalho é o primeiro a admitir que é feliz em palco e para quem trabalha com ele não há dúvida de que "gosta muito do que faz". Talvez o segredo seja esse: "o teatro dá-lhe essa alegria, essa vida, de que tanto precisamos”.
“Eu chamo-lhe o Rei de Carvalho, porque ele já não é o Ruy de Carvalho. Ele é o rei do teatro e bem vivo que ele está”.

 
"Quando o Ruy sabe que tem uma sessão, um espetáculo, a energia dele é logo outra. (...) Começa a crescer aquela energia do palco”, disse ainda o encenador. "É a magia do teatro”.

Paulo Sousa Costa acredita mesmo que "esta adrenalina é o que o mantém bastante vivo", mantém "a chama acesa”.
"Os três da vida airada"
Ruy de Carvalho é o primeiro a valorizar a amizade e acredita que recebe todo o amor que dá. Em digressões os atores e as equipas de produção passam muitas horas juntos. Daí nascem muitas relações, como a amizade entre Ruy, o ator Luís Pacheco e o encenador Paulo Sousa Costa.

Apelidam-se em grupo como os "Três da Vida Airada". E entre brincadeiras são "Cocó, Ranheta e Facada".

"Eu sou o Facada", disse logo o Ruy, enquanto via os quadros com os desenhos de "camionetas" que desenhou na viagem a Maputo.

Foi na digressão a Moçambique, quando fizeram um safari, que surgiram as alcunhas, entre conversas e histórias engraçadas que Ruy ia contando.

"Quando chegámos a Portugal, enquanto o Ruy esperava no camarim pelo início do espetáculo, ia fazendo umas réplicas dos carros dos safaris que nós usávamos", contou Luís Pacheco.

Está tudo guardado e emoldurado no escritório de Paulo Sousa Costa. Ruy às vezes desenha, mas só veículos, que é a sua especialidade.

Em palco, termina a peça a dirigir-se ao seu "amado público", que o aplaude emocionado e de pé: "Adoro-vos".